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SBOT - Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia

Cuidar da mobilidade é também cuidar da vida

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Por Miguel Akkari, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia

Celebrar o Dia do Médico é reconhecer uma profissão que tem na essência o compromisso de cuidar. Mas, para nós, ortopedistas, cuidar significa muitas vezes ir além do tratamento da doença ou da recuperação de uma lesão. Significa devolver autonomia, reconstruir movimentos, aliviar a dor e, sobretudo, ajudar cada pessoa a retomar sua vida com dignidade.

A ortopedia e a traumatologia estão presentes em diferentes momentos dessa jornada. No nascimento, no envelhecimento, na prática esportiva, no trabalho e nas inúmeras situações em que a mobilidade é colocada à prova. Estamos ao lado de pacientes que precisam voltar a caminhar, trabalhar, brincar com os filhos, praticar um esporte ou simplesmente realizar atividades cotidianas que, antes de uma lesão, pareciam banais.

Entre os grandes desafios enfrentados pela especialidade está, sem dúvida, o trauma provocado pelos sinistros de trânsito. E, nesse cenário, a realidade das motocicletas merece atenção especial. O Brasil vive uma verdadeira epidemia de acidentes envolvendo veículos de duas rodas, com milhares de mortes, internações e pessoas que carregam sequelas físicas e emocionais por toda a vida.

Os números são contundentes. Dados consolidados pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia mostram que foram 166.026 internações de motociclistas, em um universo de 251.699 hospitalizações relacionadas ao trânsito ao longo de 15 anos. Ou seja, aproximadamente dois terços das internações ocorreram entre usuários de motocicletas. Não estamos falando apenas de estatísticas: são vidas interrompidas, famílias impactadas e um sistema de saúde pressionado por consequências que, em grande parte, podem ser evitadas.

É justamente por isso que o médico não pode ser apenas aquele que espera o paciente chegar ao consultório, à emergência ou ao centro cirúrgico. Nosso compromisso com a sociedade começa também na prevenção. Uma pesquisa realizada pelo IQG – Instituto Qualisa de Gestão, pela FIESP e pela SBOT, com 23.240 usuários de motocicletas nos 27 estados brasileiros, ajuda a iluminar esse caminho. O levantamento mostra que 59,5% dos entrevistados já sofreram um acidente de moto e que mais da metade pilota seis horas ou mais por dia. Mas revela algo ainda mais importante onde o problema não pode ser colocado exclusivamente sobre os ombros do indivíduo.

A pesquisa foi estruturada em 3 pilares: Indivíduo (o que o motociclista sabe e consegue fazer), Grupo (o que o ambiente social influencia) e Sistema (o que as condições ao redor incentivam ou dificultam). Enquanto o pilar Indivíduo alcançou 91,2 pontos (até 100), considerado alto, o pilar Sistema ficou em apenas 32,2. Entre esses extremos está o Grupo, com 72 pontos. A mensagem é clara: as pessoas podem reconhecer os riscos e desejar agir com segurança, mas fatores econômicos, sociais, profissionais e estruturais interferem diretamente em suas escolhas.

Essa constatação muda a forma como devemos enfrentar o problema. Educação e conscientização são fundamentais, mas não suficientes. Precisamos construir um ambiente de trânsito que favoreça comportamentos seguros, valorize quem trabalha sobre duas rodas e distribua responsabilidades entre todos os atores envolvidos.

É nesse ponto que iniciativas como a pesquisa da SBOT, em parceria com a FIESP e o IQG, humanizam ainda mais a ortopedia. O ortopedista não está apenas no centro cirúrgico reconstruindo ossos e articulações. Está também de mãos dadas com a sociedade para evitar que essas lesões aconteçam. Neste Dia do Médico, portanto, celebrar nossa profissão é reafirmar esse compromisso. Porque devolver mobilidade é uma das mais nobres formas de cuidar. Mas trabalhar para que menos pessoas percam sua mobilidade, sua saúde ou a própria vida também é medicina.

Veja o artigo: https://bit.ly/UPpharma-219-p-30

18 de outubro de 2026 • 08:00

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