Orlando Pinto de Souza – Biografia

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Orlando Pinto de Souza – Biografia2018-10-14T16:56:39+00:00

Orlando Pinto de Souza (1906-1982)

por Alex Guedes

Um dos mais venerados ícones da Medicina Brasileira, o professor Orlando Pinto de Souza (Figuras 1 e 2), em sua trajetória acadêmica e profissional, deixou-nos marca indelével de genialidade e generosidade, proporcionando vasto legado de contribuições originais à cirurgia ortopédica nacional, sendo lembrado, com muito respeito, por todos aqueles que com ele conviveram (1).

Trajetória Acadêmica, Profissional e Atividades Associativas

Nascido e criado em São Paulo-SP, graduou-se na 12ª turma (1929) da então Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (atual FMUSP), defendendo Tese de Doutoramento intitulada “Contribuição ao Estudo das Rupturas e Luxações dos Meniscos Inter-articulares do Joelho” (2).

Junto a Domingos Define, Francisco Elias de Godoy Moreira, Renato da Costa Bonfim, Ivo Define Frascá, Anysio Figueiredo, Anysio Figueiredo, Itapema Alves, Domingos Rezende, Álvaro Câmara, Ulysses Barbuda, Antônio Caio do Amaral e Antônio Rogério Longo, era um dos discípulos do Prof. Luiz Manuel de Rezende Puech, primeiro Titular da antiga Cadeira de Clínica Ortopédica e Cirurgia Infantil da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, que possuía como campo de prática, à época, as instalações da Santa Casa de São Paulo (3).

Em março de 1938 foi aprovado como Livre Docente pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Com o falecimento do professor Puech, em janeiro de 1939, foi aberto concurso para preenchimento da cátedra vaga, à qual se inscreveu, concorrendo com os professores Domingos Define e Francisco Elias de Godoy Moreira (3,4). No referido concurso, defende a tese intitulada “Estudo Sobre Dôres Lombares” (6). Segundo o Prof. Hungria Filho (3), “Com menos de 10 anos de formatura, concorreu, em igualdade de condições, com dois candidatos mais velhos e mais titulados à disputa da cátedra de Ortopedia da FMUSP; não venceu por falta de títulos, mas não de capacidade intelectual e didática”. O professor Orlando foi o segundo colocado no certame, cuja vaga foi conquistada pelo professor Godoy Moreira (3,4).

Desde sempre, a partir de sua formatura, atuou profissionalmente no Hospital Municipal de São Paulo e no Serviço de Ortopedia da Santa Casa de São Paulo. Foi membro fundador da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), em 1936. Foi ainda titular da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia de São Paulo e da Associação Paulista de Medicina. De 1941 a 1945, presidiu a Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.

Em 1968, com a aposentadoria do professor Domingos Define, Orlando Pinto de Souza assumiu a chefia do Pavilhão Fernandinho Simonsen (Figura 3), permanecendo no cargo por pouco mais de um ano (1). O professor Hungria Filho (3), em sua obra “Memórias da Misericórdia”, informa que, em 1969, houve grande reformulação do Corpo Clínico por conta do novo regulamento, que exigia dedicação integral aos Chefes de Serviço e Chefes de Grupos, o que fez com que o professor Orlando deixasse de aceitar a condição de Chefia – alegava que seus compromissos não comportavam um trabalho em tempo integral. Em seu lugar, assumiu a chefia o professor José Soares Hungria Filho, que a exerceu até 1980 (1).

Mesmo afastado da chefia, manteve atuação no PFS, onde permaneceu contribuindo no ensino e pesquisa de inovação, até a sua passagem, a 13 de fevereiro de 1982 (3), após período de internação por complicações relacionadas à operação de retirada de cálculo renal.

Principais Contribuições Técnicas

Exímio cirurgião, o professor Orlando abordava a coluna vertebral pela via anterior, tanto na região torácica como na abdominal, sem o auxílio de um cirurgião geral (1). Além da cirurgia da coluna vertebral, manteve como áreas de interesse a traumatologia, a tuberculose e outras infecções osteoarticulares, a paralisia infantil, a cirurgia do quadril e a oncologia ortopédica.

Dentre as inúmeras contribuições técnicas que compartilhou com os ortopedistas brasileiros, podemos mencionar:

1. O desenvolvimento de um sistema de fixação de fraturas e alongamento ósseo semelhante ao desenvolvido pelo professor Ilizarov, que, nas palavras do professor Hungria Filho: “…já tinha sido feito, pelo menos nos seus princípios fundamentais, pelo Dr. Orlando, muitos anos antes; apenas não foi desenvolvido até o seu aperfeiçoamento final, devido a um acidente causado pelo seu uso imprudente por um médico despreparado” (3).
2. O desenvolvimento da primeira endoprótese não convencional nacional, sob medida, em acrílico, para a substituição de segmento distal de fêmur acometido por sarcoma, publicada nos anais do 1º Congresso Latino Americano de Ortopedia e Traumatologia, em 1950, e na Revista Arquivos Médicos do Município de São Paulo (Vol. 3, pp. 59-66, apud Bruno Maia) (7).
3. A sua mais famosa e principal contribuição, o pino-parafuso, também conhecido como sistema OPS (1963), sistema de fixação indicado nas fraturas do segmento proximal do fêmur – sistema simples na execução, e barato pelas características do implante e de seu instrumental, permitindo marcha com apoio mais precoce (3,8) (Figura 4);
4. Foi um dos precursores da artroplastia total do quadril no Brasil, tendo desenvolvido o “Sistema Prof. Orlando Pinto de Souza”, ou “Prótese Total Fisiológica do Quadril” (9) (Figura 5) – totalmente nacional, do conceito à produção dos implantes – pressupunha fixação não cimentada dos componentes, obedecendo à orientação das linhas de força exercidas sobre o promontório que, transmitidas lateralmente sob o sacro, através do estreito superior da bacia e daí ao cótilo, epífise e cortical medial do fêmur, formam uma parábola – a prótese, colocada como parte integrada desta parábola, sofreria apenas forças naturais de pressão. Advogou este princípio por acreditar que as próteses totais de quadril, cujo desenvolvimento obedece a parâmetros anatômicos, estariam sujeitas a forças nocivas que deteriorariam os resultados. Trata-se de conceito original e que, a nosso ver, ainda merece estudos. Não foi incorporado à época por concorrer com a prótese importada de Charnley que, introduzida no Brasil em 1972 (8), possuía grande aceitação pelos ortopedistas.

O Personagem “Orlandão”

As observações de alguns de seus alunos à época, acadêmicos da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e residentes do PFS, traduzem bem a personalidade simples, a jovialidade e a inteligência, que o fizeram ser carinhosamente batizado de “Orlandão”.
O professor Pedro Péricles Ribeiro Baptista (10), refere-se ao professor Orlando como indivíduo jovem de espírito, que cultuava esportes como a natação, a equitação e outros; gostava de ensinar e era simples no trato; tinha grande habilidade no tratamento conservador (com o qual muito aprendeu) e cirúrgico de fraturas – era original e criativo.

Nas palavras do professor Cláudio Santili (11): “Vindo da hípica, de súbito adentrava a reunião com aquele sorriso largo e seguro, olhar arisco, sempre em busca d’algum caso interessante no negatoscópio…”; “… No peito, a camisa aberta expunha o enorme cordão de ouro e no braço, as mangas, delicada e elegantemente arregaçadas, deixavam transparecer o espírito livre e inventivo do professor…”; “… Viveu a ortopedia na sua plenitude liberal, quando criar era permitido, mas apenas aos privilegiados”.

Agradecimentos

Agradecemos a inestimável contribuição dos professores Olavo Pires de Camargo (Prof. Titular do DOT-HC-FMUSP), Pedro Péricles Ribeiro Baptista (Prof. Adjunto da FCMSCSP e Consultor do Grupo de Oncologia Ortopédica do PFS) e Cláudio Santili (Prof. Adjunto da FCMSCSP e Docente da Pós-Graduação da FCMSCSP) para a realização deste trabalho.

 

Referências

1. Santin RAL, Ono NK, Frizzo G. Pavilhão Fernandinho Simonsen 1931-2006. 75 anos de História. São Paulo: Centro de Estudos Prof. Dr. Waldemar de Carvalho Pinto Filho; 2006.
2. Souza OP. Contribuição ao Estudo das Rupturas e Luxações dos Meniscos Inter-Articulares do Joelho [tese]. São Paulo: Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo; 1929.
3. Hungria Filho JS. Memórias da Misericórdia. São Paulo: Artes Médicas; 2000.
4. Napoli MMM. História do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. In: Barros Filho TEP, Camargo OP, Camanho GL. Clínica Ortopédica. Barueri: Manole; 2012. p.33-42.
5. Souza OP. Temas Ortopédicos. São Paulo: Revista dos Tribunais; 1939.
6. Souza OP. Estudo Sobre Dôres Lombares [tese]. São Paulo: Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo; 1939.
7. Maia B. Bibliografia Brasileira de Ortopedia e Traumatologia 1797-1977. São Paulo: Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; 1979.
8. Delmonte S. Entrevista: Sérgio Rudelli. O Quadril. 2014;5:4-5.
9. Souza OP. A prótese total fisiológica do quadril. Nota preliminar. Rev Bras Ortop. 1977;12(1):49-52.
10. Baptista PPR. Comunicação Pessoal. (em 21/05/2015).
11. Santili C. Comunicação Pessoal – OPS Like a Fac Simile. (em 21/05/2015).

Figura 1.  Professor Orlando Pinto de Souza

Figura 2.  Professor Orlando Pinto de Souza

Figura 3.  Pavilhão Fernandinho Simonsen

Figura 4.  Pino-parafuso

Figura 5.  “Sistema Prof. Orlando Pinto de Souza”, ou “Prótese Total Fisiológica do Quadril”